
O CMV (Custo da Mercadoria Vendida) do restaurante se calcula em duas camadas. Primeiro, você monta a ficha técnica de cada prato para descobrir quanto ele custa de verdade. Depois, apura o CMV do período: estoque inicial + compras − estoque final, dividido pelo faturamento. Quando a ficha técnica fica integrada a um sistema PDV para restaurante, a baixa de estoque acontece a cada venda e o CMV deixa de ser uma conta feita no fim do mês.
Este guia mostra o passo a passo completo, com um exemplo numérico, os erros mais comuns e os critérios para sair da planilha.
O que é ficha técnica de prato e por que ela define o CMV
A ficha técnica é o documento que descreve a receita de um prato: ingredientes, quantidades exatas, rendimento, modo de preparo e custo. Ela cumpre três funções ao mesmo tempo:
- Custo: mostra quanto cada prato consome de insumo.
- Padronização: garante a mesma porção e o mesmo sabor, não importa quem está na chapa.
- Treinamento: a equipe nova aprende pela ficha, não pela memória de quem já trabalha ali.
Sem ficha, o preço do cardápio vira palpite. E palpite custa caro. Uma matéria do Diário do Comércio, com dados da Pesquisa Nacional de Conjuntura Econômica da Abrasel, relata que 32% dos empresários do setor não conseguiram repassar a inflação ao cardápio nos últimos 12 meses. Quem não sabe o custo atualizado do prato tem ainda mais dificuldade de decidir quando e quanto reajustar.
A ficha técnica transforma o custo do prato em número, e o preço do cardápio deixa de ser chute.
CMV, CMC e CMP: as siglas sem confusão
| Sigla | Significado | Para que serve |
|---|---|---|
| CMV | Custo da Mercadoria Vendida | Custo total dos insumos vendidos no período |
| CMC | Custo da Mercadoria Consumida | Termo usado em muitos materiais para o custo de insumos consumidos; na prática, o custo de um prato ou do período |
| CMV% | CMV ÷ faturamento × 100 | Mostra quanto da receita foi para insumos |
Neste guia, usamos "custo do prato" para o valor de um item e "CMV" para o resultado do período.
Passo a passo para calcular o custo e o CMV
1. Liste os ingredientes com quantidade exata
Anote cada ingrediente do prato em gramas, mililitros ou unidades. Nada de "um pouco", "uma colher" ou "a gosto". Se a medida não pode ser pesada, ela não entra no custo com precisão.
2. Crie fichas para as preparações intermediárias
Molhos, caldos, massas, bases e recheios ganham ficha própria. O custo por quilo do molho da casa, por exemplo, entra como ingrediente nos pratos que o usam. Sem isso, você esquece do azeite, do tempero e do gás que foram para a base.
3. Aplique o fator de correção
O fator de correção (FC) é peso bruto ÷ peso líquido. Ele cobre cascas, aparas e perdas de limpeza. Se você compra 1,1 kg de tomate e aproveita 1 kg, o FC é 1,1. Este é o passo que mais separa o custo real do custo "de papel".
4. Considere rendimento e cocção
Carnes encolhem na grelha, arroz dobra de volume na panela. Se você compra cru e vende cozido, a ficha precisa refletir esse rendimento. Muitos materiais ignoram esse ponto e o custo da porção sai errado.
5. Atualize o preço de compra
Use o valor da nota fiscal, com frete incluso. Preço de tabela de fornecedor ou "o que lembro de ter pago" distorce tudo. Sobre impostos, cuidado: abater ICMS e PIS/COFINS só faz sentido para quem recupera crédito, e empresas no Simples Nacional normalmente não recuperam. Valide com seu contador antes de decidir.
6. Some e calcule o CMV% do item
Custo do prato = soma dos custos de todos os ingredientes já corrigidos. CMV% do prato = custo ÷ preço de venda.
7. Calcule o CMV do período
A fórmula é:
CMV = estoque inicial + compras − estoque final
CMV% = CMV ÷ faturamento × 100
Esse cálculo exige inventário no início e no fim do período. Sem contagem, o número não fecha.
8. Compare CMV teórico e CMV real
O CMV teórico vem das fichas: tudo que deveria ter sido consumido pelo que foi vendido. O CMV real vem do estoque, pela fórmula acima. A diferença é o seu diagnóstico.
9. Precifique e revise o cardápio
Com o custo na mão, defina o preço por CMV-alvo ou markup, e depois use a engenharia de cardápio para decidir o que destacar, reajustar ou tirar.
Exemplo completo: hambúrguer artesanal
Os valores abaixo são hipotéticos, apenas para ilustrar a conta. Use os preços das suas notas fiscais.
| Ingrediente | Quantidade líquida | Fator de correção | Preço de compra | Custo |
|---|---|---|---|---|
| Pão brioche | 1 un | 1,0 | R$ 1,80/un | R$ 1,80 |
| Blend bovino | 160 g | 1,0 | R$ 38,00/kg | R$ 6,08 |
| Queijo cheddar | 30 g | 1,0 | R$ 40,00/kg | R$ 1,20 |
| Alface | 20 g | 1,3 | R$ 12,00/kg | R$ 0,31 |
| Tomate | 40 g | 1,1 | R$ 8,00/kg | R$ 0,35 |
| Molho da casa (ficha própria) | 30 g | 1,0 | R$ 25,00/kg | R$ 0,75 |
| Batata frita (porção) | 150 g | 1,2 | R$ 7,00/kg | R$ 1,26 |
| Custo total do prato | R$ 11,75 |
Com preço de venda de R$ 34,90, o CMV% do item é 11,75 ÷ 34,90 = 33,7%.
Se a meta é CMV de 30%, a conta de preço é: custo ÷ CMV desejado = 11,75 ÷ 0,30 = R$ 39,17. Arredondando para R$ 39,90, o CMV% cai para cerca de 29,5%.
Preço ideal = custo do prato ÷ CMV% desejado. Com R$ 12 de custo e meta de 30%, o prato vai a R$ 40.
Markup e margem não são a mesma coisa
Markup de 100% significa vender pelo dobro do custo, o que equivale a margem de 50%. Misturar os dois termos faz o dono achar que tem mais lucro do que tem. Defina qual método usa e mantenha o padrão em toda a equipe.
Qual CMV é considerado saudável
Materiais como o do Sebrae PR trazem como referência de mercado um CMV entre 25% e 40% do faturamento. Fast food e autosserviço ficam na faixa baixa; restaurantes à la carte, na alta. É um ponto de partida, não uma regra: sua meta depende de aluguel, folha, ticket médio e posicionamento.
CMV teórico versus real: o diagnóstico que quase ninguém faz
Veja um mês hipotético:
- Estoque inicial: R$ 20.000
- Compras: R$ 38.000
- Estoque final: R$ 18.000
- CMV real = 20.000 + 38.000 − 18.000 = R$ 40.000
- Faturamento: R$ 130.000, logo CMV real = 30,8%
Pelas fichas técnicas, o consumo esperado das vendas foi de R$ 36.400, ou 28% do faturamento. A diferença é de R$ 3.600, cerca de 2,8 pontos percentuais. Esse dinheiro saiu do estoque sem virar venda registrada.
As causas mais comuns:
- Porcionamento fora do padrão: a mão pesada na proteína.
- Ficha desatualizada: o insumo subiu e a ficha continua com o preço antigo.
- Desperdício e validade: perda por mau armazenamento.
- Erro de lançamento: compra ou inventário digitados errado.
- Furto ou consumo não registrado.
A diferença entre CMV teórico e real não é um número a lamentar. É o mapa de onde seu dinheiro está vazando.
O desperdício merece atenção à parte. Um estudo da ONU (Índice de Desperdício de Alimentos), citado pela Central do Varejo, aponta que 17% dos alimentos disponíveis aos consumidores foram descartados em 2019, e que o food service é o maior desperdiçador depois dos domicílios. O dado é de 2019, mas ilustra por que perda não é detalhe.
Delivery tem ficha própria
A ficha do salão não serve para o delivery. Embalagem, comissão de marketplace e taxas de pagamento ficam de fora e distorcem a margem. O ideal é manter uma ficha por canal: o mesmo hambúrguer custa mais quando sai embalado, com guardanapo, sachê e sacola. Se você quer reduzir a dependência de marketplaces, o guia sobre software PDV para restaurante delivery explica como estruturar o delivery próprio integrado ao PDV.
Planilha ou software de gestão para restaurantes?
A planilha serve para começar. Mas ela deixa de funcionar quando:
- O cardápio passa de algumas dezenas de itens.
- Você vende em mais de um canal (salão, balcão, delivery).
- Os preços dos insumos mudam com frequência.
- Ninguém tem tempo de atualizar as fichas depois de cada compra.
Nesse ponto, um software de gestão para restaurantes com ficha técnica e estoque integrados evita retrabalho. Para saber se é hora de trocar, veja os 7 sinais de que é hora de trocar seu sistema PDV.
Ficha técnica integrada ao sistema PDV para restaurante
Quando a ficha técnica vive dentro do sistema PDV, o ciclo se fecha sozinho. A cada venda, no salão ou no delivery, o sistema deduz os insumos do estoque com base na ficha do prato. Com isso:
- O estoque é debitado em tempo real, sem inventário manual para cada ajuste.
- O CMV é calculado de forma dinâmica, acompanhando a variação de preço dos insumos.
- Você enxerga a margem real por prato, não só o CMV% de papel.
É assim que funciona a Ficha Técnica do DineLink: o controle de estoque debita os insumos a cada item vendido e mantém o CMV atualizado.
Cardápio digital como alavanca de margem
Num sistema de restaurante com cardápio digital integrado, o estoque conversa com o que o cliente vê. No DineLink, se um ingrediente chega a zero, os pratos que dependem dele saem do cardápio automaticamente. Isso evita pedido de item que a cozinha não consegue entregar, e o cancelamento que vem depois.
O cardápio digital também permite:
- Destacar pratos de CMV baixo e boa margem.
- Testar ajustes de preço com base nos dados da ficha.
- Cruzar margem e popularidade, a base da engenharia de cardápio.
O DineLink permite criar o cardápio digital base de forma gratuita e oferece 30 dias de teste dos módulos avançados de gestão. Para entender a integração entre PDV e cardápio, leia sobre o sistema PDV para restaurante com cardápio digital integrado.
O que exigir de um sistema para controlar CMV
Ao comparar opções para escolher o melhor sistema para restaurante, use um checklist objetivo em vez de promessas de vitrine:
- Ficha técnica com preparações intermediárias e fator de correção.
- Baixa automática de estoque a cada venda.
- CMV por prato e por período, atualizado quando o preço de compra muda.
- Comparativo entre CMV teórico e real.
- Fichas separadas por canal (salão e delivery).
- Relatórios financeiros, como DRE, no mesmo lugar.
- Funcionamento estável, inclusive com internet instável.
Para um roteiro mais amplo, consulte o guia como escolher o melhor sistema PDV para restaurante.
Erros comuns que distorcem o CMV
- Frete fora do custo: o insumo entra pelo preço de tabela, não pelo que você pagou.
- Medidas em "colher" ou "punhado": impossíveis de padronizar.
- Ficha sem as preparações base: o molho e o caldo ficam sem custo.
- Sem fator de correção: o custo sai menor que o real.
- Ficha parada no tempo: o preço do insumo subiu e a ficha não acompanhou.
- Inventário irregular: sem contagem, o CMV do período não fecha.
Rotina simples para manter tudo em dia
- Toda compra: atualize o preço do insumo e revise os pratos afetados.
- Toda semana: faça contagem rápida dos itens de maior valor, como proteínas.
- Todo mês: feche o inventário, calcule o CMV real e compare com o teórico.
- Todo trimestre: revise o cardápio com base em margem e popularidade.
Quem faz essa rotina deixa de apagar incêndio e passa a decidir com dado.
Próximo passo
Calcular o CMV com ficha técnica é o primeiro passo para ganhar controle sobre a margem. Quer entender como modernizar seu negócio e tirar a gestão da planilha? Baixe nosso e-book gratuito: O Guia Definitivo da Automação para Restaurantes.
Perguntas frequentes
- Qual é o CMV ideal para restaurante?
- A referência de mercado, citada por materiais como o do Sebrae PR, fica entre 25% e 40% do faturamento. Fast food e autosserviço tendem à faixa baixa, e o à la carte à faixa alta. O número ideal do seu negócio depende de aluguel, equipe e posicionamento, então defina uma meta própria e acompanhe todo mês.
- Como calcular o CMV de um restaurante?
- O CMV do período é estoque inicial + compras − estoque final. Para virar percentual, divida esse valor pelo faturamento do mesmo período e multiplique por 100. Já o CMV de um prato vem da ficha técnica: custo dos ingredientes dividido pelo preço de venda.
- O que é fator de correção na ficha técnica?
- É a relação entre o peso bruto do ingrediente, como comprado, e o peso líquido, depois de limpeza e aparas. Se você compra 1,1 kg de tomate e aproveita 1 kg, o fator é 1,1. Ele evita que o custo do prato fique menor do que o real.
- Posso fazer ficha técnica no Excel ou preciso de um sistema?
- Dá para começar na planilha com poucos itens e um único canal de venda. Quando o cardápio cresce, os preços dos insumos mudam com frequência ou você vende no salão e no delivery, o ideal é um sistema com ficha técnica integrada ao PDV e baixa automática de estoque.
Quer isso funcionando no seu restaurante?
